segunda-feira, agosto 05, 2002

Todos os Meus Poemas

Acordei numa cidade desconhecida. O casal sentado à minha frente já havia parado de conversar e grande parte dos demais passageiros do ônibus dormia, apesar de não ser noite. Concluí que deveriam ser em torno de três da tarde. Tentei ater-me a olhar pra fora. A paisagem era linda. Havia neblina cobrindo as montanhas ao fundo e choviscava. De vez em quando a ritmia dos campos era quebrada ora por uma densa floresta, ora por pequenas casas com pequenas pessoas desempenhando pequenas funções. Uma placa apontava para uma entrada. Esculpido em madeira e pintado de branco lia-se "Estrada Bonita". Eu queria isso. Viver naquele clima bonito na estrada bonita e jogar pedras no rio bonito. Mas não agora. Agora eu queria lembrar dele. E do sorriso dele. E de como ele me olhava. Lembrei do "olhar pra trás ao mesmo tempo" e percebi que desta vez o "não" não era uma certeza. Daí eu quis café. Mas não tive vontade de ir pegá-lo. E continuei com a minha dor de garganta adquirida na manhã, engolindo seco e doendo.
Apesar da dor, era legal estar ali. Com dor-de-garganta-adquirida-na-viagem-por-vontade-inventada. Eu estava naquele ônibus não-sei-por-quê. Talvez por curiosidade. Pra ver o que acontece. E no fundo eu parecia saber que o que me aguardaria lá seria aquela outra coisa, que eu quase já nem lembrava existir: f.e.e.l.i.n.g.c.a.l.l.e.d.s.a.u.d.a.d.e. Mas era cedo pra dizer qualquer coisa. E eu achei melhor fechar os olhos depois que passei por uma loja de coisas que lembravam ele. Mas fechar os olhos era quase uma aceitação da minha pena. Era a possiblidade de lembrar de detalhes, de pensar besteira, de sorrir sozinha, de chover por dentro. Como um certo amigo meu que "chove muito mais do que lá fora". Um bom amigo. E daí eu fechei os olhos. E notei que tudo aquilo que era lindo não era verdade. Não existia. Eu não sentia. Mas eu quis lembrar dele. Talvez como só mais um rostinho lindo com gosto de cigarro que me levava nos melhores restaurantes e nunca pagava pra mim. E eu gostava. Gostava de estar com o quase-vegetariano, popularzinho, pega-todas, libriano, aspirante a ator, campeão de judô e inteligente. Gostava do gosto que as coisas tinham quando eu estava com ele. Do jeito que ele se vestia. Do jeito que ele me abraçava e do jeito que ele escrevia o apelido. E do olhar 43 dele. E das mãos secas. E do não-gostar de ambas as partes. Mas havia o resto do mundo. E todos os meus problemas estavam lá. Me espiando de longe aguardando minha volta. Acho que era disso que aquela viagem me salvaria. Só por dois dias, mas tudo bem. Eu estaria com as pessoas que sempre me salvaram. Que sempre me fizeram sorrir. No matter what. - Aí eu lembro que eu sorri, olhando pra fora. Pra paisagem que agora passava rápida e igual. E ainda faltava muito.
Ironicamente, fazia sol quando saí de Curitiba. Fazia sol, fazia trabalho de história dos meios, fazia almoço com ele. E o cabelo dele tem um cheiro tão bom... Droga, fez o mundo parecer Hollywood.