sexta-feira, agosto 16, 2002

E que parecesse eterno. Então. Ao menos.

Mas ao invés disso, serão novas sextas-feiras sozinha em casa. Será uma certa carência, quando eu tiver vontade. Serão finais-de-semana, às vezes. Será eu. Serei. Sozinha. E será descobrir o quanto é difícil pra mim me relacionar com qualquer pessoa. Porque eu me acostumei. Porque às vezes, quase sempre, eu não me dou ao trabalho. Porque deixei de gostar de intimidade. E de querer qualquer abraço que não seja o teu. E na verdade, só hoje, eu acho tudo muito trabalhoso. E prefiro largar um solene 'foda-se'. E que me perguntem depois como tudo é tão fácil pra mim. E que não me entendam, e que se irritem, e que sejam menos folgados e que não se achem jamais no direito de me pedir algo. De exigir que eu sinta, de querer que eu demonstre. Hoje eu queria te tirar do mundo e explodir ele. Mas isso eu queria numa lentidão quase sonora. Isso eu queria como quem quer um sorvete com, por favor, uma cereja em cima.
Ah, mas é sexta-feira e eu vou estar sozinha e queria poder beber uma tequila e fechar os olhos e ligar pra alguém no meio da madrugada e gritar. E incomodar. E deixar de ser quem eu sou por um minuto, e incomodar. Descontrolar o mundo. Gerar um pequeno caos só pra ter certeza de que ainda funciona. Destruir. Quebrar um copo. Jogar no chão o teu disco preferido, arrancar páginas dos teus livros. Só pra lembrares; Ser um pouco mais do que esse azul discreto demais. Ser vermelho. Por um minuto. Mas dá tudo no mesmo... mesmo.
E acordar num sábado depois de ter feito besteira e me arrepender. E voltar à minha vida azul, calma, odiando a minha parte vermelha, às vezes roxa demais. Porque eu odeio o roxo. Que age sem pensar e promete coisas demais. Promete. E é carinhoso com quem não merece. Com quem não importa. E não consegue dizer um 'foda-se' vermelho ou um 'leave me alone' azul.

E agora vai embora. Veste essas calças feias e carrega na mão os teus sapatos. Porque eu não quero. Porque o que mais importa não está aqui.