segunda-feira, dezembro 09, 2002

Estava triste. Ele sabia. Sempre sabia quando ela/eu estava triste. E sabia o porquê e sabia o quanto e sabia como; lia suas verdades tatuadas no azul dos olhos dela. Agora já vermelhos de lágrimas.
Sabia que por trás daquele sorriso e daquele esforço pra tudo ficar bem, ela chorava. Sabia que ela fingia bem até demais. Que sofria por não conseguir se livrar do que ela considerava uma obrigatoriedade de fazer o bem pra todo mundo, menos pra si mesma. O que não sabia era que pra ela era mais fácil fazer aos outros, porque nunca conseguia decidir o que queria ao certo.Porque nunca soube. E quando sabia, era tão fácil achar uma desculpa... Era tão mais fácil não ver do que admitir que estava tudo bem. Tão mais fácil reclamar que seus relacionamentos não duravam. Tão mais fácil ficar sozinha e não ter que dever nada a ninguém.
E no final, tão mais fácil achar que tudo acaba por qualquer errinho bobo...
Pra não ter que pensar a respeito. Nem pedir desculpas. Nem reconhecer.
Pra não ter que achar um jeito de contornar os problemas, e não ter que conversar.
Ela odiava conversar. Preferia trancar-se num quarto e chorar e assumir toda culpa. Não gostava de conflitos e/ou simplesmente não se dava ao trabalho de discutir. Fechava os olhos e queria que tudo sumisse. Queria que se resolvesse assim. Que o tempo voltasse, talvez.
Mas nada sumia e nada voltava. Então ela reconhecia seu erro, estragava tudo um pouco mais e ía embora. Por ser covarde. Por ser cansada. Cansada daquele pseudo-altruísmo na qual a enquadravam. Ela não se dava ao trabalho, na verdade. Era comodista. Só isso.
Então ela tentava se definir. Tentava se encaixar, se explicar. Tentava se convencer de que estava tudo bem. Tentava não precisar de remédios, pra não parecer uma fraca idiota hipocondríaca. Pra não ser rotulada por todos aqueles babacas que se achavam no direito.
Ela tentava. Como também tentava muita coisa mais, quando, às-vezes-com-certeza-a-maioria-do-tempo, preferia sumir. Calma como sempre. Suave como nunca. Sumir.