Love Around the Corner
"Estava cansada. Dos livros, dos discos, da vida toda. Da flor quase morrendo na janela, dos vizinhos, do apartamento decorado de forma estranha. Cansada de tudo. Principalmente, de ter deixado um pouco de viver quando deixou todo mundo pra trás pra fazer o que quisesse. Cansada daquela cidade, daquele constante estado anestésico, dos cabelos curtos, do modo diferente de se vestir. Olhando no espelho, notava-se cansada até mesmo dos olhos castanhos.
Colocou o som alto e sentou-se no sofá verde. Deitou-se. Começou a passar os olhos com lentidão pelo apartamento escuro. Pensou em abrir as cortinas. Pensou em arrumar suas coisas. Em fazer uma viagem. Pensou em ir pra aula de teatro. Pensou em ligar pra alguém. Se tivesse alguém para o qual ligar, ao menos. Juntou, no chão ao lado do telefone, uma velha agenda telefônica. Folheou as páginas, em sua maioria repletas de números de amigos, amigas, ex-namorados, pretendentes. Mas não quis. Faltava quem a entendesse. Faltava quem soubesse o quanto que ela precisava sentir. Faltava. Não existia.
Levantou subitamente, querendo surpreender quem quer que fosse. Quem quer que soubesse. Pegou sua bolsa roxa e saiu. Desceu as escadas sem pressa. Viu em uma das paredes uma frase riscada por ela mesma, há alguns anos, quando voltava pra casa com uma amiga no meio da madrugada. Sorriu, ao ler "Love is all we need" numa grafia que indicava óbvia embriaguez. Lembrou da amiga. E lembrou que não queria lembrar. Que o normal seria pegar o elevador. Mesmo que desde o começo, ela se mudara pra aquele lugar com a promessa de sempre usar as escadas. Mas promessas mudam. Tudo muda.
Saiu do prédio e entrou no café ao lado. Cumprimentou o senhor que trabalhava no Café, e naquele momento se deu conta de que já haviam se passado quatro anos. E ela não sabia sequer seu nome. Não sabia o preço do Capuccino. Não sabia o horário de funcionamento. E era o que ela precisava naquele momento, sentir-se em casa.
Pediu um Banana Split. Sentou em uma mesa do canto, ao lado de uma janela. E enquanto esperava ficou inerte, olhando as pessoas passarem com pressa, com graça, com medo, com vida. E imaginou, como sempre, como seria a vida de cada uma delas. E foi interrompida pelo Banana Split. Sorriu para o garçom. Um alguém com a sua idade, com quem talvez até já tivesse saído algumas vezes, pelo que lembrava. Quis chamá-lo mas não sabia o seu nome. Sorriu, irônica. Sozinha.
Terminou seu sorvete com uma lentidão poética e por lá ficou por mais uma hora. Tinha quase-medo de voltar pra vida. Fazer coisas, ser útil. Terminar a faculdade, procurar os documentos pro mestrado, dar aulas particulares.
Voltou os olhos para o balcão. Certificou-se de que não havia fila no caixa. Levantou-se e foi pagar sua conta. Sorriu tímida para o senhor do caixa. Comprou um bombom e saiu.
E depois daquilo, daquele instante insignicante na sua vida, ainda pensou muito. E foi naquela noite que foi a uma festa como todas as outras, conheceu alguém como todos os outros, bebeu e riu como sempre. E esqueceu que era aquilo que não queria mais. Mas o fez. E fez amor. E teve alguém acordando ao seu lado todos os dias, durante dois longos meses. E terminou como tudo terminava. Até que se mudou do apartamento bagunçado. Deixando pra trás o que não havia sido nada, e ao mesmo tempo tanto. Deixou pra trás aquela vontade de ser importante pra alguém. Deixou pra trás as lágrimas que um dia molharam aquele chão de madeira, velho. Deixou também uma inscrição no fundo do armário, a quem pudesse interessar: "Love is all we need".
E partiu pra um tempo onde nada mais importava. Nada."