Girou a torneira e a água do chuveiro veio silenciosa. Morna. Agradável como pouca coisa mais. Apoiou a cabeça na parede fria e deixou a água escorrendo no corpo. Sentou. Pensou se agüentaria ficar ali sentada até passarem-se dias e dias e então morrer de fome. Se os vizinhos notariam. Se ouviriam o barulho incessante da água. Se viriam reclamar porque o condomínio viria alto. Se daria pra dormir. E só.
Acontece que meia hora já parecia demais. Uma eternidade. Um saco. Fechou a torneira e se enrolou na primeira toalha que encontrou. Caminhou lento até o quarto e se jogou na cama. "Slackerbitch", pensou.
Olhou no relógio - Ah, sim. As horas. - atrasada. Ligou pros olhos castanhos e eles não estavam mais em casa. Colocou uma calça amassada e uma camiseta. Derrubou as coisas de cima da escrivaninha pra tentar achar a chave do carro. Achou aquela foto engraçadinha dos tênis. Dos pés - dele e dela - se entrelaçando de forma estranha. E a outra em que ele acendia o cigarro. E aquele monte de... restos! Detalhes dele. - Malditos detalhes. - em formato dez por quinze, saídos de dentro de uma gaveta que deveria ter sido lacrada pra sempre, não fosse aquela mania dela de tentar descobrir o que (ainda) sentia. Parou com a foto da boca. Quis chorar. Mas meninas não choram. Guardou-as no bolso da calça. Todas elas. Quem sabe...
Lembrou da chave na estante da sala. Deixou aberta a janela do quarto e o som ligado. Pegou um maço de cigarros. E a chave. E os restos. E foi.
Estranho. Ele era, definitivamente, estranho. Ela pensou nisso no caminho, enquanto dirigia sem ver os outros carros, sem ver a rua, os sinais, e as placas. Ignorando qualquer existência que não a dela. Ou, até, a própria. No que não havia problema, também, visto a existência dela se resumir a tão poucas coisas. Uma caixa de tinta de cabelo, poucas palavras, cigarros, cabelos curtos e óculos escuros. Há dois meses atrás, convinha também incluir o cara estranho com quem ela aparecia nos lugares. Na verdade, o que menos fazia era aparecer e, ainda assim, convinha.
Estacionou o carro em local proibido. Mandou à merda a guardinha estressada. Seguiu as instruções pra chegar no local combinado. Novamente, passou pela sua cabeça o fato de ele ser, possivelmente, a pessoa mais estranha que ela conhecia. Marcou de se encontrar com ela numa igreja abandonada. Isso. Sim, bem isso. E nem a chance de retrucar e de acusá-lo de ser insano ela teve. Apenas o bilhete. Um "precisamos conversar" e as instruções pra chegar no local, interditado, por sinal.
Cogitou a possibilidade de ele estar planejando seu assassinato. Mas àquela altura, isso parecia não importar tanto assim. Levaria dias até que alguém notasse o sumisso dela. E mais alguns até o cheiro de podre infestar os barracos próximos à igreja abandonada. Isso se ele deixasse o corpo dela por ali mesmo, e não o esquartejasse a fim de andar com ele no porta-malas até encontrar um local apropriado para despejar os restos mortais da "pobre menina rica" - viciada em nicotina. Faria em alguns minutos o que o cigarro levaria algum tempo a mais para fazer. E daí?
Mas o fato é que não era ele que guardava rancor. Nem ela. Logo, não se assassinariam.
Entrou e ele não havia chegado ainda, como o esperado. Sentou numa pedra imunda e acendeu seu Lucky Strike. Observou o lugar. A primeira laje havia sido arrancada, de modo que o teto ficasse absurdamente alto. Embaixo da igreja deveriam ter existido, algum dia, salas de aula, ou algo do gênero. Agora o altar ficava estranhamente posicionado no meio da parede, numa altura sem sentido. Perguntou-se se as pinturas no teto eram barrocas ou sei-lá-o-quê. Não sabia. E isso não parecia fazer dela uma pessoa pior. Ouviu passos. Olhos castanhos.
continua, sim.